Estudos
 
A TRANSFORMAÇÃO DA ÁGUA EM VINHO - Humberto Xavier Rodrigues
 
Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. João 2:6.



O Senhor Jesus realizou muitos milagres durante o seu ministério terreno. Este, a transformação da água em vinho, foi escolhido pelo Espírito Santo para dar início a um conjunto de oito milagres registrados no Evangelho de João. A riqueza da mensagem e a sua significação, que estão desenhadas nas entrelinhas, são-nos reveladas durante a narrativa. Para uma melhor compreensão do texto, consideraremos sete aspetos do milagre.



Primeiro: Encontramos uma notável figura da regeneração do pecador. Na ilustração das seis talhas de pedra, vemos aqui a condição do homem antes da sua regeneração; ele é como uma talha de pedra: vazio, frio, sem vida e inútil. Essa é a condição de todos os homens, revelada plenamente nesta figura. O homem nasce destituído da vida de Deus. Por isso, todo o seu ser está comprometido, destituído de entendimento espiritual, em profundas trevas. Toda a cabeça está doente, e todo o coração, enfermo. Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo. Isaías 1: 5-6. O coração, na Bíblia, deve ser entendido como a pessoa integral do homem: é o centro moral de toda a sua atividade intelectual, emocional e volitiva. Por isso, este coração está completamente enfermo.



Segundo aspecto: Vemos a inutilidade da “religião dos homens” para salvar e purificar o pecador. A religião é fruto do esforço centrado no homem para encontrar-se com Deus. Estas talhas estavam intencionadas para o cerimonial de purificação. Um ritual simplesmente externo desprovido de poder para tocar no coração dos homens. O homem encontra-se numa total incapacidade para fazer qualquer contribuição para tornar-se aceito diante de Deus. O coração do evangelho está no fato de que, na cruz, Deus publicamente propôs Cristo como a oferta pelo pecado, e, por esta oferta, todo homem tem acesso à presença de Deus.
Para o apóstolo Paulo, que era completo na sua religiosidade, ocorreu uma mudança radical. O seu antigo ganho tornou-se perda. Cristo tornou-se tudo para o apóstolo. Não era o mal que desaparecia, mas desaparecia tudo o que se ligava a ele como vantajoso para a carne. Era agora outra Pessoa – e não ele próprio – que lhe era preciosa. Que mudança profunda e radical em todo o seu ser. Outrora, na sua religião, ele era o centro. Quando esta cessa de ser o centro da sua própria importância, um outro, que é digno de ser, torna-se o centro de sua existência: uma Pessoa Divina, um Homem Celestial, Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé. Filipenses 3:8-9.
O apóstolo Paulo podia, se fosse preciso, vangloriar-se em tudo o que dizia respeito à carne. Tudo o que constituía privilégio judaico ele o possuía no mais elevado grau; ele tinha ultrapassado todos os outros num santo zelo contra os inovadores. Mas, uma única visão mudou por completo a sua vida. Paulo viu o Cristo glorificado. Desde então, tudo o que ele possuía segundo a carne foi lançado por terra. O pior de todas as imitações é uma religião que não muda o coração: uma religião que tem tudo, menos o amor de Cristo entronado na alma. F. Whitfield


Terceiro: Pela palavra de Jesus, as talhas foram cheias com água. A água é um dos símbolos da palavra de Deus. E é por meio da Sua palavra que somos vivificados. O Espírito Santo usa a palavra de Deus para vivificar o espírito do homem outrora morto por causa do pecado. A palavra de Deus não só nos regenera, como também nos sustenta em momentos difíceis. A nossa salvaguarda contra a tentação é a palavra de Deus quando usada com discernimento para aplicá-la às circunstâncias presentes.

Horas negras chegam para todos. Quando pedras são lançadas, ondas perturbadoras nos atingem, a menos que tenhamos aprendido a confiar na presença perpétua Daquele que pode formar e manter uma grande tranqüilidade dentro da alma. Pela palavra de Deus, somos guardados das ciladas do diabo. É pela palavra de Deus que se efetua a separação da alma e do espírito. Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. Hebreus 4:12. O Bispo Jewel disse: A palavra de Deus é a água da vida; quanto mais a colhemos, mais ela se renova. É fogo da glória de Deus; quanto mais a sopramos, mais brilha ao se queimar. É o grão do campo do Senhor; quanto mais a moemos, mais produz. É o pão do Céu; quanto mais é partida e distribuída, mais sobra. É a espada do Espírito; quanto mais polida, mais brilha.


Quarto aspecto: A água produziu vinho, “bom vinho”. O vinho é símbolo da alegria. Aqui não se refere a uma alegria produzida pelo efeito da química do vinho, nem tampouco no otimismo natural, mas como fruto decorrente da presença de Cristo em nossos corações. A autobiografia de Teresa de Ávila está cheia das descrições dos êxtases arrebatados nos quais ela sentia uma alegria indescritível na presença de Deus. Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos. Filipenses 4:4. Alegrar-se sempre no Senhor, e é Nele que encontramos tudo aquilo que nada pode mudar. Para os cristãos, o Senhor é a fonte de alegria cujo caudal, mesmo na angústia, jamais se esgota. Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente. Salmo 16:11. Somos colocados no relacionamento com uma Pessoa incomparável: o amado Filho de Deus, e, na Sua presença, podemos viver numa atmosfera de uma profunda e interminável alegria.



Quinto: Nós lemos: Assim iniciou os milagres de Jesus. Isto é precisamente o que o novo nascimento é: um milagre. Do início até o fim. A regeneração começa por um milagre, fruto da graça, e, por esta mesma graça, somos conduzidos dia a dia. A vida do homem, no estado de pecado e fora da graça, é, de acordo com a palavra de Deus, uma vida de ofensas e pecados. Essa é a vida do homem sem a graça de Deus: ela está corrompida, vivendo nos desejos da carne. O homem foi criado com o propósito de viver sob o governo da graça, mas ele se apartou disso, saiu da sua verdadeira posição.


Sexto aspecto: E manifestou Sua glória, isto significa que é na regeneração do pecador que a glória do nosso Senhor e salvador é manifestada. A gloriosa substância do que estava escondido sob as figuras manifestou-se na Pessoa do nosso Senhor Jesus. A glória da Pessoa de Jesus Cristo não só se manifestou, mas se manifestará por toda a eternidade. O que mais nos surpreende é que Deus nos fez participantes dessa glória. Pela queda, perdemos a glória de Deus, isto é, perdemos a presença de Cristo no nosso íntimo, mas, na redenção, essa glória é-nos restituída, e, por ela, somos transformados conforme a Sua imagem.
O chamamento de Deus é a garantia de que aqueles que Ele ressuscitou para uma nova vida em Cristo não deixarão de alcançar a glória futura, pois aqueles que foram conquistados pela graça e forjados na bigorna da graça de Deus não podem ser esquecidos no meio da jornada. A visão do cristão deve transcender a tudo: ele é um homem celestial vivendo aqui na terra. Isto significa que o nascido de Deus deve olhar todas as coisas sob o ponto de vista de Deus. Pois, o nosso grande Deus está reunindo todas as coisas para nos fazer parecidos com o Seu Filho. Alguém expressou assim: Que as nossas dificuldades sejam bem-vindas.


Sétimo: Os seus discípulos creram nele. O homem morto não pode crer. A primeira reação da alma renascida é voltar-se para Cristo. É da obra da regeneração que procede o ato de crer em Cristo. Ser um filho de Deus é inteira e unicamente o resultado da graça de Deus, graça que brota inteiramente do caráter misericordioso de Deus. Assim, o fundamento da salvação é algo que vem da parte de Deus. Isto significa que não é uma resposta de Deus a alguma coisa que vem de nós. Graça é um dom imerecido de Deus aos homens. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos. Efésios 2:4-5.


O que a palavra de Deus está afirmando aqui é que estávamos mortos, isto é, absolutamente sem vida, à semelhança de Lázaro que jazia no tumulo há quatro dias, sem uma centelha de vida. A primeira coisa que nos é necessária, é que nos seja transmitida a vida, para que sejamos vivificados. E, foi exatamente isto que Deus fez por nós. E a pergunta é esta: pode um morto reviver? Veio sobre mim a mão do SENHOR; ele me levou pelo Espírito do SENHOR e me deixou no meio de um vale que estava cheio de ossos, e me fez andar ao redor deles; eram mui numerosos na superfície do vale e estavam sequíssimos. Então, me perguntou: Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos? Respondi: SENHOR Deus, tu o sabes. Disse-me ele: Profetiza a estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do SENHOR. Assim diz o SENHOR Deus a estes ossos: Eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis. Ezequiel 37:1-5.


Acaso podem reviver estes ossos? Há uma única resposta: sim, pela graça. Chegamos, pois, a esta inevitável conclusão: somos cristãos, neste momento, única e inteiramente pela graça de Deus. Quando éramos inimigos, alienados e completamente mortos espiritualmente, Deus buscou-nos como resultado da Sua bondade. A primeira coisa que o homem precisa é de vida. O preço para ser vivificado foi a cruz. Ele nos vivificou juntamente com Cristo. Portanto, a jactância é inteiramente excluída e o gloriar-nos até da fé, também tem que ser excluído. A salvação é inteiramente de Deus.


A fé é o canal, o instrumento através do qual esta salvação, que é pela graça de Deus, vem a nós. Somos salvos pela graça por meio da fé. A fé é simplesmente o meio através da qual a graça de Deus nos introduz em Cristo. Devemos estar certos que não é a fé que nos salva, mas, somos salvos pela graça. Não é a nossa crença, a nossa fé, não é o nosso entendimento e nada que façamos; tudo isso está excluído, pois pela graça somos salvos por meio da fé, que vem pelo ouvir e o ouvir da palavra de Deus. E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. Romanos 10:17.